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COCÓ EM PRIMEIRA PESSOA

 

A origem do meu nome tem muitas versões. A mais popular conta que é uma homenagem às mulheres que com seus cabelos presos em um cocó, lavavam roupas nas minhas águas. Meu rio nasce na Serra de Aratanha, passa por Maracanaú, Itaitinga e Fortaleza até desaguar no oceano Atlântico, mais precisamente nas praias do Caça e Pesca e da Sabiaguaba. Já fui cheio de vida, rodeado por mangues e dunas; já estiveram em meu seio muitas comunidades. Hoje, tenho apenas duas, e, apesar de estar em 15 bairros da capital alencariana, estou limitado a 1571 hectares, o equivalente a 2 mil campos de futebol, que muitos julgam serem suficientes.

A especulação pretende acabar com os 17% restantes das minhas dunas. Algumas das minhas áreas são supervalorizadas enquanto outras são esquecidas.

Ainda abrigo grande biodiversidade, mas não se compara ao que um dia já fui. Vejo a cidade evoluir dia após dia, muitas coisas não são como um dia foi, e eu? Tornei-me um campo de lutas. Algumas pessoas são afetadas por mim, outras me afetam; outros acreditam que estou apenas “ocupando” uma área da cidade; muitos sabem da importância da minha fauna e flora; alguns não fazem ideia do que bichanos inocentes podem causar ao meu ecossistema. A especulação pretende acabar com os 17% restantes das minhas dunas. Algumas das minhas áreas são supervalorizadas enquanto outras são esquecidas.

O governo tem alguns programas voltados para a minha estrutura, como o Concurso de Ideias, que tem o objetivo de melhorar a proposta urbanística e paisagística do meu entorno, mas não sei ao certo até que ponto serei beneficiado com isso.  Às vezes sou ocupado pela população, recebo, por exemplo, aos finais de semana o projeto ‘Viva o Parque’, com o objetivo de oferecer lazer as crianças e adultos que aqui estão. Além de diversão, as pessoas recebem orientação sobre como usufruir do meu espaço de forma saudável. Aos sábados, domingos e feriados, um amigo faz passeio com seu barco ao lado de curiosos pelas minhas águas e fala sobre minha fauna e flora. Além dele, possuo aliados e guardiões, como o ativista do movimento ‘SOS Cocó’ Gabriel Aguiar e o jornalista Demitri Túlio.
 
Eu nasci a partir de  manifestações contrárias à construção de um banco na minha área. Depois de muitas lutas, as autoridades declararam, em 29 de março de 1977, a primeira parte do meu rio a ser protegida. Mas foi em novembro de 1983, que o Decreto Municipal Nº 5.754 deu a denominação de Parque Adhail Barreto, um dos meus espaços, os seus 10 primeiros hectares.

 

Em setembro de 1989, o governo publicou o Decreto Estadual número 20.253, criando o meu primeiro nome: Parque Ecológico do Cocó. Em junho de 1993, fui expandido para uma área de 1.155,2 hectares. Mas, como não houve consolidação do Parque do ponto de vista legal, acabei sofrendo algumas invasões no meu entorno. Outros dois decretos de desapropriação caducaram e a regularização fundiária não foi devidamente efetuada.

1.155,2

hectares

Em 2013, vivenciei um momento histórico na cidade de Fortaleza: muitas pessoas, ao saberem da tentativa da Prefeitura de destruir 93 árvores minhas para a construção do viaduto, criaram o movimento “Ocupe Cocó”. Tal ocupação durou três meses e ativistas, ciclistas e a população que se sensibilizou com o assunto conviveram comigo diretamente. A mobilização gerou conflitos, o governo solicitou uma ordem judicial de reintegração de posse, após, a Justiça que determinou a desocupação do meu Parque, recuou da decisão por acreditar que o assunto deveria seguir para um patamar maior e passou o processo para a Justiça Federal. Apesar do viaduto ter sido construído e eu ter perdido espécimes de fauna e flora, naquele momento eu venci e mostrei que junto a sociedade sou capaz de resistir.
 
Em maio de 2016, a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (SEMA) apresentou, durante uma audiência pública conjunta da Assembleia Legislativa do Estado com a Câmara de Vereadores de Fortaleza, o projeto que me regulamentaria.Finalmente, após 40 anos desde a primeira tentativa, no dia 4 de junho de 2017 fui oficialmente regulamentado e passei a me chamar Parque Estadual do Cocó, mas cerca de um quarto de mim permanece sem proteção legal.
 
Muitos lutam pela minha sobrevivência, alguns dizem que pertenço a certas famílias, outros acham uma bobagem eu ainda estar vivo. Durante esses anos sangrei bastante, mas posso dizer que vivi momentos felizes. Vi crianças correndo e brincando; conheci alguns casais que fizeram juras de amor eterno; vi velhinhos passeando por aqui; jovens fazendo piqueniques e me fotografando.
 
Eu pertenço a Fortaleza e ao Ceará, sou da população que me usufrui de maneira positiva e estou pronto para permanecer aqui e crescer. Vou lutar com mais força para não ser mais destruído. Além de fazer parte da história do cearense, sou reconhecido como o maior parque urbano da América Latina e o segundo maior do Brasil. Não estou aqui por acaso: eu abrigo vidas e histórias e elas não ficarão apenas nas lembranças.

 

Marcela Benevides

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As palavras do curador

''Participar do projeto Cocó em Primeira Pessoa foi uma grande satisfação para mim. Como biólogo e conservacionista, sempre admirei muito aqueles e aquelas que paravam um pouco na correria do dia-a-dia para ouvir as vozes do Parque do Cocó. Nesse projeto, belamente conduzido pela Professora Eulália, os estudantes se permitiram escutar, muitos pela primeira vez, as vozes do parque. O Cocó conversou com alguns através do canto dos pássaros, com outros pelas vozes de comunidades tradicionais e com outros ainda através do lamento dos impactos ambientais tão penosos de se ouvir. A experiência de imersão foi vivida em primeira pessoa por cada um e cada uma do projeto e será contada aqui com a riqueza de observações e emoções que cada estudante assimilou desse sujeito de direito chamado Cocó. Agradeço a oportunidade e parabenizo todas as equipes pelo inspirador trabalho!

Muito obrigado, Gabriel Aguiar

 
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